Jairzinho: história, gols e Copa do Mundo de 1970
Jairzinho marcou em todos os jogos da Copa de 1970. Conheça a carreira, os gols, o Botafogo, a Libertadores e o legado do lendário Furacão brasileiro no futebol.
HISTÓRIA
9/2/202610 min ler
Jairzinho: história, gols, Copa de 1970 e legado do Furacão
Quem foi Jairzinho?
Jair Ventura Filho, conhecido mundialmente como Jairzinho, foi um dos maiores atacantes da história do futebol brasileiro. Ídolo do Botafogo, campeão mundial com o Brasil em 1970 e vencedor da Libertadores pelo Cruzeiro, o atacante construiu uma carreira muito mais extensa do que sua histórica participação na Copa do Mundo do México.
Embora seja lembrado principalmente pelo Mundial de 1970, quando marcou em todas as seis partidas disputadas pelo Brasil, sua trajetória inclui momentos de superação, grandes títulos, uma grave lesão e atuações marcantes tanto pela Seleção Brasileira quanto pelos clubes.
Conhecido como “Furacão”, Jairzinho combinava velocidade, força física, explosão e capacidade de atacar espaços. Essas características fizeram dele um atacante diferente de outros grandes pontas de sua geração.
Jairzinho marcou em todos os jogos da Copa de 1970?
Durante muito tempo, tornou-se comum afirmar que Jairzinho foi o único jogador a marcar em todas as partidas de uma Copa do Mundo.
A afirmação, porém, precisa de uma correção.
Em 1950, o uruguaio Alcides Ghiggia marcou nos quatro jogos disputados pelo Uruguai, incluindo o gol decisivo do famoso Maracanazo. Em 1958, o francês Just Fontaine também marcou em todas as seis partidas da França e terminou a competição com 13 gols, recorde que permanece até hoje.
O feito específico de Jairzinho foi ainda mais particular: ele marcou em todas as seis partidas de uma campanha que terminou com o título mundial do Brasil em 1970.
Ao todo, foram sete gols.
Quantos gols Jairzinho marcou na Copa de 1970?
Jairzinho marcou 7 gols em 6 partidas na Copa do Mundo de 1970.
Ele balançou as redes contra:
Tchecoslováquia — 2 gols;
Inglaterra — 1 gol;
Romênia — 1 gol;
Peru — 1 gol;
Uruguai — 1 gol;
Itália — 1 gol.
Mesmo com sete gols, Jairzinho não terminou como artilheiro do Mundial. O alemão Gerd Müller marcou dez vezes.
Ainda assim, o atacante brasileiro entrou para a história como o único jogador a marcar em todas as partidas de uma Copa do Mundo na qual sua seleção conquistou o título.
A infância e o início de Jairzinho no Botafogo
Jair Ventura Filho nasceu em 25 de dezembro de 1944.
Sua família mudou-se para General Severiano, praticamente ao lado da sede do Botafogo. Foi nesse ambiente que começou a surgir sua ligação com o clube que posteriormente se tornaria uma das grandes marcas de sua carreira.
Durante muito tempo, contou-se que Jairzinho havia começado sua relação com o Botafogo como gandula.
O próprio jogador, entretanto, contestava essa versão.
Segundo Jairzinho, o Botafogo sequer utilizava gandulas daquela maneira naquele período. O que acontecia era que ele morava perto do campo e costumava acompanhar os treinamentos.
Alguns goleiros chutavam bolas em sua direção, e o jovem Jair ficava por perto, devolvendo-as e convivendo com os jogadores.
Não era exatamente um gandula, portanto. Mas desde muito cedo ele já estava inserido no ambiente do clube onde construiria grande parte de sua história.
Jairzinho nas categorias de base
Nas categorias de base, Jairzinho já demonstrava características que posteriormente seriam fundamentais para sua evolução.
Apesar de ficar conhecido como ponta-direita, ele não era um jogador limitado à linha lateral. Também atuava por dentro, como meio-atacante, participando da construção das jogadas.
Entre 1961 e 1963, foi tricampeão juvenil pelo Botafogo.
Aos 17 anos, também fez parte da Seleção Brasileira que conquistou a medalha de ouro no futebol dos Jogos Pan-Americanos de 1963, realizados em São Paulo.
Depois, começou a treinar e jogar ao lado de grandes nomes do futebol brasileiro.
Didi, Amarildo, Parentinha, Zagallo e Garrincha estavam entre os jogadores que faziam parte daquele ambiente.
E seria justamente Garrincha que criaria um dos maiores desafios do início da carreira de Jairzinho.
Jairzinho e Garrincha: dois craques no mesmo lado do campo
Jairzinho e Garrincha chegaram a jogar juntos pelo Botafogo.
O problema era que ambos preferiam atuar pelo lado direito.
Enquanto Garrincha estivesse saudável e disponível, aquela posição praticamente tinha dono. Afinal, tratava-se de um dos maiores ídolos da história do Botafogo.
Por isso, Jairzinho precisou adaptar seu jogo.
Ele atuou pela esquerda, apareceu por dentro e, em determinados momentos, desempenhou praticamente a função de centroavante.
Essa versatilidade também seria importante na Seleção Brasileira.
Na Copa do Mundo de 1966, Garrincha ainda vestia a camisa 7 do Brasil, enquanto Jairzinho foi deslocado para a ponta esquerda.
A Copa do Mundo de 1966 e a grave lesão
O Brasil chegou à Copa do Mundo de 1966, na Inglaterra, como bicampeão mundial.
A expectativa era enorme, mas a Seleção apresentou um futebol desorganizado e acabou eliminada ainda na primeira fase.
Jairzinho disputou as três partidas do Brasil naquela competição.
No mesmo ano, sofreu uma grave fratura no quarto e no quinto metatarsos do pé.
A lesão não se consolidava adequadamente e o atacante precisou passar por um enxerto ósseo, procedimento bastante incomum para um jogador daquela época.
A recuperação demorou quase dois anos.
Em determinado momento, a carreira de Jairzinho chegou a correr sério risco.
A transformação de Jairzinho no “Furacão”
Quando retornou aos gramados, em 1967, havia dúvidas sobre se Jairzinho conseguiria recuperar sua explosão.
A resposta veio dentro de campo.
Ele voltou mais forte, agressivo e perigoso, especialmente quando abandonava a lateral para atacar diretamente a área.
O Botafogo conquistou os Campeonatos Cariocas de 1967 e 1968, além das Taças Guanabara dos dois anos.
Em 1968, o clube também conquistou a Taça Brasil, competição posteriormente reconhecida como uma edição do Campeonato Brasileiro.
Durante sua passagem pelo Botafogo, Jairzinho disputou mais de 400 partidas e se aproximou dos 190 gols.
Esses números ajudam a mostrar que ele era muito mais do que um ponta tradicional.
Como Jairzinho jogava?
Garrincha era conhecido pelo drible, pela mudança de direção e pela capacidade de desequilibrar o adversário.
Jairzinho possuía características diferentes.
Sua principal arma era a combinação de velocidade, força física e explosão.
Quando recebia a bola com espaço, muitas vezes não procurava simplesmente chegar à linha de fundo para cruzar.
Ele atacava a área.
Partia em diagonal, buscava a finalização e aparecia em zonas normalmente ocupadas pelo centroavante.
Em termos modernos, Jairzinho poderia ser descrito como um ponta que atuava frequentemente por dentro ou como um atacante de lado com forte presença na área.
Jairzinho na Seleção Brasileira de 1970
A versatilidade de Jairzinho seria fundamental para o funcionamento da Seleção Brasileira na Copa do Mundo de 1970.
O Brasil possuía uma equipe repleta de jogadores criativos.
Pelé tinha liberdade para se movimentar.
Tostão saía da área e participava da construção.
Rivelino atacava pelo lado esquerdo.
Gérson organizava o jogo mais atrás.
E Jairzinho partia principalmente da direita.
Mas ele raramente permanecia preso à sua posição inicial.
A Seleção trocava posições constantemente, aproximava seus jogadores e confundia as marcações.
Nesse sistema, Jairzinho tornou-se o principal homem de profundidade.
Ele era responsável por transformar a circulação de bola em ruptura, atacando os espaços e acelerando as jogadas quando a defesa adversária estava desorganizada.
Brasil 4 x 1 Tchecoslováquia
Na estreia da Copa de 1970, o Brasil saiu atrás no placar contra a Tchecoslováquia.
A equipe reagiu e terminou vencendo por 4 a 1.
Jairzinho marcou dois gols.
Era o primeiro sinal de que o atacante teria um papel central naquela campanha.
Brasil 1 x 0 Inglaterra
Na segunda rodada, o Brasil enfrentou a Inglaterra, campeã mundial de 1966 e dona de uma das defesas mais respeitadas daquele período.
O jogo permaneceu equilibrado até o segundo tempo.
Tostão iniciou a jogada, Pelé recebeu dentro da área e encontrou Jairzinho chegando pela direita.
Com um chute forte e praticamente sem preparação, Jairzinho marcou o gol da vitória brasileira.
Jairzinho contra a Romênia e o Peru
Jairzinho também marcou contra a Romênia na fase de grupos.
Nas quartas de final, diante do Peru, voltou a deixar sua marca.
Com isso, sua sequência de gols em todas as partidas do Mundial continuava intacta.
Jairzinho contra o Uruguai: gol e dribles na semifinal
Na semifinal da Copa do Mundo de 1970, o Brasil enfrentou o Uruguai.
A Seleção Brasileira venceu por 3 a 1, de virada, e Jairzinho marcou o gol que colocou o Brasil em vantagem.
Mas sua atuação foi muito além da finalização.
De acordo com as estatísticas históricas utilizadas na análise, Jairzinho tentou 14 dribles e completou 10 naquela partida.
Ao longo da Copa, foram contabilizados 47 dribles bem-sucedidos.
Entre as edições analisadas pela FIFA, apenas Diego Maradona, com 53 dribles na Copa do Mundo de 1986, superou a marca de Jairzinho.
Isso ajuda a desmontar a imagem de que o atacante era apenas um finalizador que aproveitava os passes de Pelé.
Jairzinho também carregava a bola, eliminava adversários e criava desequilíbrios individuais.
Além disso, seus sete gols foram marcados em apenas 11 finalizações, demonstrando uma eficiência ofensiva extraordinária.
Jairzinho na final da Copa do Mundo de 1970
Na decisão contra a Itália, Jairzinho voltou a ser decisivo.
Com o Brasil vencendo por 2 a 1, Pelé ganhou uma disputa pelo alto e a bola chegou até Jairzinho.
O atacante apareceu para marcar o terceiro gol brasileiro.
O 3 a 1 praticamente encerrou a resistência italiana.
Mas Jairzinho também teve importância tática no quarto gol, uma das jogadas coletivas mais famosas da história das Copas.
O papel de Jairzinho no gol de Carlos Alberto
Zagallo orientou Jairzinho a movimentar-se para o lado esquerdo.
A intenção era atrair o lateral italiano Giacinto Facchetti e abrir espaço no corredor direito para a passagem de Carlos Alberto Torres.
O movimento funcionou.
Jairzinho ajudou a deslocar a marcação, participou da troca de passes e contribuiu para que Carlos Alberto aparecesse livre.
Pelé recebeu a bola, encontrou o lateral brasileiro e Carlos Alberto finalizou para fazer 4 a 1.
A imagem mais famosa ficou com o capitão brasileiro, mas o movimento de Jairzinho teve importância na criação do espaço para aquela jogada.
Jairzinho depois da Copa de 1970
A carreira do “Furacão” não terminou no Estádio Azteca.
Jairzinho ainda disputou a Copa do Mundo de 1974, na Alemanha Ocidental.
A Seleção Brasileira já não contava com Pelé, Tostão e Gérson, pilares da geração campeã em 1970.
Mesmo assim, Jairzinho marcou mais dois gols.
Ao todo, terminou sua história em Mundiais com 9 gols em três Copas do Mundo.
Jairzinho no Olympique de Marseille
Em 1974, depois de passar grande parte da carreira no Botafogo, Jairzinho transferiu-se para o Olympique de Marseille.
Já próximo dos 30 anos, chegou à França como uma grande contratação e reencontrou o compatriota Paulo César Caju.
Apesar de sua passagem ter sido curta, conseguiu marcar 9 gols em 18 partidas pelo Campeonato Francês.
Sua aventura no futebol francês, porém, terminou de maneira conturbada após uma confusão envolvendo a arbitragem em uma partida da Copa da França.
Jairzinho foi punido, contestou a acusação e deixou o clube depois de apenas uma temporada.
Jairzinho e a Libertadores de 1976 pelo Cruzeiro
Aos 31 anos, Jairzinho chegou ao Cruzeiro cercado de dúvidas.
Parte da imprensa acreditava que o atacante já estava velho e não conseguiria acompanhar o nível de uma das melhores equipes da América do Sul.
A resposta veio novamente dentro de campo.
Na Libertadores de 1976, Jairzinho marcou 11 gols em 12 partidas.
O atacante teve participação importante na campanha que levou o Cruzeiro até a decisão continental.
A homenagem a Roberto Batata
A campanha do Cruzeiro foi marcada por uma tragédia.
O atacante Roberto Batata morreu em um acidente de carro, deixando seus companheiros profundamente abalados.
No primeiro jogo depois da tragédia, contra o Alianza Lima, o Cruzeiro venceu por 7 a 1.
Os jogadores haviam combinado que tentariam chegar ao sétimo gol como homenagem a Roberto Batata, que utilizava a camisa 7.
E foi justamente Jairzinho quem marcou o sétimo gol.
O simbolismo era enorme: um lendário camisa 7 da Seleção Brasileira marcava o sétimo gol de uma partida dedicada a outro jogador que também vestia a camisa 7.
Jairzinho fica fora do jogo decisivo
Apesar de ter sido fundamental na campanha, Jairzinho foi expulso no segundo jogo da final contra o River Plate.
Por causa da suspensão, ficou fora da partida de desempate.
O Cruzeiro venceu a decisão com o famoso gol de falta de Joãozinho e conquistou a Libertadores de 1976.
Jairzinho ajudou a levar a equipe até a final, mas precisou assistir de fora ao momento em que o título foi confirmado.
Jairzinho e o início da carreira de Ronaldo Fenômeno
Depois de encerrar sua carreira como jogador, Jairzinho continuou ligado ao futebol.
Ele trabalhou relacionado às categorias de base do São Cristóvão e esteve envolvido no desenvolvimento de jovens jogadores.
Foi nesse contexto que apareceu Ronaldo Nazário.
Existem diferentes versões sobre quem teve a indicação decisiva para levar Ronaldo ao Cruzeiro. Por isso, seria exagerado afirmar que Jairzinho foi sozinho o responsável por descobrir o futuro Fenômeno.
No entanto, Jairzinho fazia parte da estrutura do São Cristóvão, trabalhou como observador e esteve envolvido no caminho que levou o jovem atacante a Belo Horizonte.
Existe, assim, uma ligação curiosa entre dois dos atacantes mais explosivos da história do futebol brasileiro.
O legado de Jairzinho no futebol brasileiro
Jairzinho não foi um novo Garrincha — e nunca precisou ser.
Os dois possuíam características diferentes.
Garrincha desmontava os defensores com dribles, mudanças de direção e uma imprevisibilidade extraordinária.
Jairzinho destruía os espaços através da força e da velocidade.
Foi um dos maiores ídolos da história do Botafogo, disputou três Copas do Mundo, marcou nove gols em Mundiais, conquistou o título mundial de 1970 e ainda venceu a Libertadores de 1976.
Seu auge, porém, talvez seja melhor compreendido quando analisamos o funcionamento da Seleção Brasileira de 1970.
Pelé era o grande símbolo daquela equipe. Gérson controlava o ritmo. Tostão interpretava os espaços. Rivelino oferecia desequilíbrio pelo lado esquerdo.
Jairzinho tinha outra missão.
Ele transformava o controle em agressividade.
Não era simplesmente um coadjuvante recebendo passes de uma equipe recheada de craques. Era o jogador responsável por oferecer potência, profundidade e velocidade ao ataque brasileiro.
Quanto mais a partida acelerava, mais perigoso Jairzinho se tornava.
Seu futebol não dependia de que o jogo permanecesse lento e organizado. Pelo contrário: quando surgiam espaços, o “Furacão” aparecia para atacá-los.
Por que Jairzinho foi tão importante para o Brasil de 1970?
A importância de Jairzinho pode ser resumida em quatro características:
Velocidade: conseguia atacar rapidamente os espaços;
Força física: era difícil de ser parado nos duelos;
Versatilidade: podia atuar aberto, por dentro ou próximo da área;
Finalização: transformava suas arrancadas em oportunidades reais de gol.
Essa combinação fez dele uma das peças fundamentais de uma das maiores seleções da história do futebol.
E talvez seja justamente por isso que a história de Jairzinho não deve ser contada apenas através dos sete gols da Copa de 1970.
Seu legado está também na capacidade de superar uma grave lesão, assumir responsabilidades após a era de Garrincha, conquistar títulos em diferentes fases da carreira e continuar sendo decisivo mesmo quando muitos já consideravam que seu melhor momento havia passado.
Jairzinho não foi apenas o camisa 7 que marcou em todos os jogos da Copa de 1970. Foi um dos atacantes mais completos, explosivos e decisivos de sua geração — um verdadeiro Furacão.
Matérias | Futebol Internacional
Análises táticas e bastidores do futebol de elite europeu.
Início-Matérias-Sobre-Contato
Redação
© 2026 Pressão Alta | Futebol Internacional-Jornalismo tático e cobertura independente do futebol internacional.
PALCO EUROPEU - COBERTURA DE ELITE
