O último jogo de Messi pela Seleção Argentina
Lionel Messi se despede da Seleção Argentina após uma carreira histórica, marcada por títulos, recordes e uma influência que ultrapassou as fronteiras do futebol.
SELEÇÕESARGENTINAMARCOS DO FUTEBOLHISTÓRIA
10/7/202621 min ler
Lionel Messi e a Argentina: uma despedida marcada por números, títulos e uma gratidão que ultrapassa fronteiras
O último jogo de Messi pela Seleção Argentina
O último jogo de Lionel Messi pela Seleção Argentina representa muito mais do que o encerramento de uma trajetória esportiva. Para milhões de torcedores, inclusive brasileiros que acompanharam sua carreira como rivais, o momento simboliza a despedida de um dos maiores jogadores da história do futebol.
A despedida também desperta uma reflexão sobre a relação construída entre Messi, a Argentina e o próprio futebol mundial. Ao longo de sua passagem pela seleção, o atacante viveu momentos de extrema pressão, derrotas dolorosas, finais perdidas, críticas e, posteriormente, uma sequência de conquistas que mudou definitivamente a percepção sobre sua carreira com a camisa argentina.
Para quem acompanha a trajetória de Messi há muitos anos, o momento reúne diversas histórias já conhecidas, mas também ajuda a dimensionar o impacto que o jogador teve dentro e fora dos campos.
Os números de Messi pela Seleção Argentina
Em termos estatísticos, a passagem de Messi pela Argentina é extraordinária. O jogador encerra seu ciclo com 207 partidas e 125 gols pela seleção. O número de assistências varia conforme a fonte utilizada, entre 60 e 68, o que coloca Messi próximo da marca de 200 participações diretas em gols pela Argentina.
Mais importante do que os números individuais, porém, é a quantidade de grandes torneios e títulos conquistados ao longo dos anos.
Messi se despede com:
2 Copas América
1 Copa do Mundo
1 Finalíssima
1 título mundial Sub-20
1 medalha de ouro olímpica
Os dois últimos títulos pertencem a competições de categorias ou formatos com características diferentes do futebol profissional absoluto, mas fazem parte da trajetória internacional de Messi.
Na Copa do Mundo, seus números também são históricos.
Messi termina sua participação no torneio como um dos maiores artilheiros da história da competição, com 21 gols, além de ser o maior assistente da história das Copas, com 12 assistências. Também é o jogador que mais vezes entrou em campo no Mundial, com 34 partidas.
Ao todo, participou diretamente de 33 gols em 34 jogos de Copa do Mundo, uma marca que resume a dimensão de sua influência no maior torneio do futebol.
Uma trajetória que quase terminou sem títulos
Apesar de toda a grandeza individual, a história de Messi com a Argentina durante muitos anos foi marcada justamente pela ausência de títulos.
A Copa do Mundo de 2014 é um dos principais exemplos. Messi fez uma boa fase de grupos e teve participação decisiva no caminho argentino até a final. Nas oitavas de final contra a Suíça, por exemplo, participou da jogada que terminou na assistência para Ángel Di María marcar o gol da classificação.
Contra a Bélgica, também teve uma atuação de destaque.
A Argentina avançou até a decisão, mas acabou derrotada pela Alemanha. Messi teve uma oportunidade importante durante a partida e ficou muito perto de conquistar a Copa do Mundo aos 27 anos.
Aquela geração argentina, entretanto, ainda teria de enfrentar outras decepções.
Depois do Mundial de 2014, Messi disputou duas finais consecutivas de Copa América contra o Chile e perdeu ambas. Após a segunda derrota, na Copa América Centenário, realizada nos Estados Unidos, chegou a anunciar sua aposentadoria da Seleção Argentina, especialmente depois de desperdiçar uma cobrança na disputa de pênaltis.
A decisão, porém, não durou para sempre.
O retorno de Messi e a transformação da Argentina
Messi voltou atrás na decisão e reassumiu a responsabilidade de liderar a Argentina. Foi fundamental, inclusive, para colocar a seleção na Copa do Mundo de 2018.
A equipe que chegou ao Mundial da Rússia, entretanto, era considerada uma seleção problemática, tanto dentro quanto fora de campo. O ambiente era muito diferente daquele que seria construído anos mais tarde.
A grande transformação começou a aparecer posteriormente.
Na Copa América de 2021, Messi finalmente conquistou seu primeiro grande título pela seleção principal. A Argentina derrotou o Brasil no Maracanã, e o troféu representou um enorme alívio para um jogador que havia passado anos sendo cobrado pela falta de conquistas com seu país.
Messi teve uma grande participação ao longo da competição, embora a atuação na final contra o Brasil tenha sido menos brilhante do que outras partidas do torneio. Ainda assim, o título mudou completamente o peso emocional de sua trajetória internacional.
A partir daquele momento, a história começou a tomar outro rumo.
A consagração na Copa do Mundo de 2022
Na Copa do Mundo de 2022, Messi chegou com uma Argentina muito mais preparada.
A seleção vinha de uma sequência impressionante de jogos sem derrota e carregava uma confiança que contrastava completamente com o ambiente vivido em 2018.
Messi foi decisivo durante toda a campanha.
Ele marcou gols, deu assistências, criou oportunidades para os companheiros e participou diretamente das principais ações ofensivas da equipe. Diferentemente das edições anteriores, conseguiu chegar à final novamente com a oportunidade de finalmente conquistar o título que faltava em sua carreira.
Dessa vez, conseguiu.
A Argentina derrotou a França em uma das finais mais marcantes da história das Copas do Mundo, e Messi finalmente levantou o troféu que durante tantos anos havia sido utilizado como argumento contra sua grandeza.
A conquista transformou definitivamente sua relação com a Seleção Argentina.
A última Copa e mais uma atuação histórica
Já em 2026, a memória da campanha ainda estava fresca, e Messi voltou a mostrar sua capacidade de decidir mesmo em uma fase avançada da carreira.
A Argentina terminou como vice-campeã mundial, enquanto Messi fechou a competição com 12 participações em gols aos 39 anos.
Algumas de suas atuações ficaram especialmente marcadas, como os jogos contra Egito e Inglaterra.
Na final, porém, a Espanha conseguiu impor um domínio enorme sobre a partida. A equipe espanhola controlou a posse de bola e praticamente impediu Messi de exercer a influência habitual.
O cenário não foi exclusivo da Argentina.
Portugal ainda conseguiu equilibrar alguns momentos da posse de bola contra a Espanha, mas também encontrou enormes dificuldades. França e Bélgica igualmente não conseguiram impor seu jogo diante de uma seleção espanhola que dominou completamente aquela Copa do Mundo.
Messi, Pelé e o debate sobre o maior da história
A trajetória internacional de Messi inevitavelmente alimenta uma comparação que atravessa gerações: Messi ou Pelé?
Durante a Copa do Mundo, surgiu novamente a discussão sobre o que aconteceria caso Messi conquistasse mais um Mundial.
Pelé continua sendo o único jogador da história com três Copas do Mundo, embora sua participação em 1962 tenha sido limitada depois de sofrer uma lesão ainda no início da competição. Mesmo assim, o brasileiro conquistou os Mundiais de 1958 e 1970 em campo e esteve presente em uma das maiores eras da história do futebol.
A discussão, contudo, vai muito além do número de títulos.
No Brasil, existe uma percepção bastante forte de que Pelé é indiscutivelmente o maior jogador de todos os tempos. No restante do mundo, entretanto, o debate é muito mais aberto.
Parte disso está relacionada ao fato de que muitas pessoas não tiveram a oportunidade de assistir Pelé jogar ao vivo ou pela televisão. Além disso, existe uma discussão recorrente sobre os números de gols do brasileiro, especialmente porque parte deles foi marcada em amistosos.
Esse tipo de questionamento, porém, precisa levar em consideração o contexto histórico.
Pelé jogava as partidas que estavam disponíveis em sua época. Os amistosos faziam parte da realidade do futebol daquele período e eram disputados contra equipes grandes e pequenas. Portanto, desconsiderar esses gols simplesmente porque foram marcados em amistosos significa ignorar o contexto em que o futebol era praticado.
Por que Pelé continua sendo o maior
A grandeza de Pelé, porém, não pode ser resumida aos gols ou aos títulos.
Para muitos, incluindo a análise apresentada no relato, Pelé é o maior jogador da história por aquilo que representou para a popularização do futebol mundial.
Antes da internet e da facilidade atual de acompanhar partidas, imagens e estatísticas, a percepção sobre os grandes jogadores era construída de outra maneira.
Pelé percorreu o mundo com o Santos e com a Seleção Brasileira, levando consigo a imagem do futebol brasileiro. Pessoas de diferentes países passaram a conhecer e admirar o esporte através daquele camisa 10.
Ele ajudou a transformar o futebol em um fenômeno verdadeiramente global.
Por isso, existe uma diferença importante entre considerar alguém o maior e considerá-lo o melhor.
A ideia defendida é que o posto de maior jogador da história pertence a Pelé por tudo aquilo que ele representou e pelo impacto que causou no futebol. Já a avaliação sobre quem foi o melhor jogador pode considerar a evolução natural do esporte.
Assim como os tenistas, lutadores, jogadores de basquete e atletas de outras modalidades evoluíram ao longo das décadas, o futebol também se transformou.
Os jogadores atuais treinam de maneira diferente, possuem preparação física mais avançada, enfrentam sistemas táticos mais complexos e atuam em um esporte cada vez mais exigente.
Nesse sentido, a evolução do jogo permite considerar Messi o melhor jogador que já entrou em campo, enquanto Pelé permanece, para essa visão, como o maior de todos.
E, naturalmente, a própria evolução do esporte pode fazer com que, no futuro, outro jogador seja considerado ainda melhor que Messi.
“Gracias, Leo”: uma despedida que ultrapassa a Argentina
É justamente quando os números e as comparações ficam de lado que a despedida de Messi ganha outra dimensão.
A expressão “Gracias, Leo” passou a representar o sentimento de gratidão dos argentinos pelo jogador.
A Argentina agradece pelos títulos, pelas atuações, pelos gols e por tudo que Messi proporcionou à seleção. Mas a gratidão não está relacionada apenas ao futebol.
Em um país que enfrenta dificuldades econômicas e sociais, o futebol frequentemente funciona como um dos poucos elementos capazes de criar momentos coletivos de alegria e união.
Messi proporcionou muitos desses momentos.
A conquista da Copa América, a Finalíssima e principalmente a Copa do Mundo de 2022 deram aos argentinos algo que ultrapassa a estatística esportiva: orgulho nacional e a sensação de compartilhar uma conquista histórica.
O mais impressionante, porém, é que essa gratidão não ficou restrita aos argentinos.
Torcedores de diferentes países também passaram a agradecer Messi por aquilo que ele proporcionou ao futebol.
Esse talvez seja um dos maiores sinais da dimensão de sua carreira: um jogador argentino conseguiu fazer pessoas de todo o mundo simplesmente quererem assistir futebol por causa dele.
O impacto de Messi sobre os próprios companheiros
A idolatria em torno de Messi também ficou evidente entre seus próprios companheiros de seleção.
Nas últimas Copas do Mundo, era possível perceber o nível de dedicação dos jogadores argentinos quando estavam ao lado do camisa 10.
Não se tratava apenas de respeitar um craque.
Havia uma sensação de privilégio em poder jogar ao lado dele.
Os jogadores da elite mundial pareciam assumir o papel de seguidores de uma liderança que ultrapassava a simples relação entre capitão e companheiros. Quando Messi apontava um caminho, os demais jogadores frequentemente seguiam.
A dedicação coletiva ajudou a construir uma Argentina extremamente competitiva e, finalmente, vencedora.
Essa relação ficou especialmente evidente durante os últimos grandes torneios, quando jogadores correram, pressionaram e lutaram por cada bola para criar as condições necessárias para que Messi pudesse decidir.
Era quase como observar torcedores realizando o sonho de dividir o campo com seu maior ídolo.
Messi e Cristiano Ronaldo: duas despedidas completamente diferentes
A saída de Messi também inevitavelmente provoca comparações com Cristiano Ronaldo.
As carreiras dos dois jogadores foram construídas praticamente lado a lado durante duas décadas, tornando quase impossível falar sobre o fim de uma sem mencionar o outro.
Ainda assim, existe uma diferença importante na maneira como os dois momentos foram percebidos.
A comparação pode ser considerada injusta ou até oportunista, mas chama atenção para a forma como Messi está encerrando seu ciclo internacional: diante de uma seleção completamente dedicada a ele, com companheiros demonstrando enorme admiração e torcedores agradecendo por tudo que ele proporcionou.
A relação construída entre Messi e a Argentina parece representar o reconhecimento de que o jogador conseguiu cumprir uma missão que durante muitos anos parecia impossível.
Ao mesmo tempo, Messi passou boa parte do último ciclo evitando confirmar se disputaria ou não a Copa do Mundo, deixando aberta a possibilidade de continuar ou parar conforme seu corpo, sua vontade e o momento da carreira.
A maturidade de Messi na reta final da carreira
O último ciclo de Messi pela Argentina foi marcado por uma série de despedidas. Aos poucos, ficou claro que determinadas partidas poderiam ser as últimas: a última Copa América, a última eliminatória, o último jogo competitivo em casa e, finalmente, a última Copa do Mundo.
O próprio Messi alimentou essa incerteza ao longo do período. Suas declarações indicavam que ele não tinha certeza se conseguiria disputar o Mundial de 2026 e que só pretendia continuar caso tivesse condições físicas de ajudar a equipe.
Essa postura revela uma maturidade importante na fase final de sua carreira.
Messi não queria permanecer na seleção simplesmente por homenagem ou por ter um lugar cativo. A ideia era estar presente apenas se pudesse contribuir dentro de campo. Para um jogador com seu status, aceitar essa possibilidade demonstra uma evolução significativa na maneira de enxergar a própria carreira.
Em outros momentos, essa maturidade talvez não estivesse tão presente. O melhor exemplo foi a aposentadoria anunciada após a derrota para o Chile em 2016. Tomada em um momento de enorme frustração, a decisão acabou sendo revertida posteriormente.
Com o passar dos anos, Messi parece ter aprendido mais sobre si mesmo, sobre seu corpo e sobre o ambiente ao seu redor. Passou a compreender melhor quando a seleção precisava dele, quando ele poderia ajudar e também quando era necessário reconhecer seus próprios limites.
O preço físico da última Copa do Mundo
A campanha de 2026 também teve um custo físico considerável.
A Argentina avançou por fases nas quais, em outras circunstâncias, seria possível imaginar Messi sendo substituído mais cedo e preservado para os jogos seguintes. O exemplo citado é uma vitória por 2 a 0 sobre Cabo Verde, na qual o cenário ideal seria Messi deixar o campo por volta dos 70 minutos.
Contra o Egito, a expectativa também seria de uma vitória relativamente tranquila, novamente com a possibilidade de Messi ser substituído por volta dos 80 minutos.
Mas a realidade da competição foi diferente.
Messi precisou continuar sendo decisivo e acumulou desgaste durante a campanha. Um dos momentos mais emblemáticos aconteceu contra a Inglaterra, quando deu uma assistência aos 47 minutos do segundo tempo para levar a Argentina à final.
Aos 39 anos, cada minuto adicional tinha um preço.
A soma desse esforço ajuda a explicar as condições físicas com que Messi e seus companheiros chegaram à decisão contra a Espanha. A Argentina havia precisado de muito de seu principal jogador durante as fases anteriores, e o desgaste acabou sendo parte da história daquela campanha.
Por que tantos brasileiros torceram por Messi?
É nesse ponto que a relação entre Messi e o público brasileiro ganha uma dimensão especialmente interessante.
Durante a Copa do Mundo, torcer pela Argentina passou a ser, para muitos brasileiros, quase uma espécie de “caça às bruxas”. Pessoas que declaravam apoio a Messi eram questionadas sobre sua escolha, principalmente porque a rivalidade entre Brasil e Argentina é uma das maiores do futebol mundial.
Mas existe uma diferença fundamental entre torcer pela Argentina e torcer por Messi.
Para muitos brasileiros, a torcida não estava relacionada à seleção argentina em si. Era uma forma de gratidão a um jogador que havia proporcionado inúmeros momentos de felicidade através do futebol.
Messi nunca precisou se transformar em um símbolo político ou assumir posições sobre todos os assuntos para ser admirado. Sua principal contribuição pública sempre esteve relacionada ao futebol.
Isso não significa que atletas não possam ou não devam se posicionar sobre questões importantes. Cada pessoa pode esperar determinadas atitudes de seus ídolos. Mas também é necessário reconhecer que as pessoas são diferentes e não necessariamente compartilham todas as opiniões ou crenças de quem as admira.
No caso de Messi, sua dedicação principal foi jogar futebol e proporcionar felicidade através dele.
Ao mesmo tempo, sua atuação fora dos gramados também merece reconhecimento. O argentino tem histórico de apoio a instituições de caridade e projetos ligados à saúde infantil, incluindo iniciativas relacionadas ao atendimento e tratamento de crianças.
Portanto, sua contribuição não se limita ao que fez dentro de campo, embora tenha sido justamente no futebol que ele alcançou uma dimensão extraordinária.
A gratidão que fez brasileiros torcerem por Messi
Para muitos torcedores brasileiros, o sentimento era simples: Messi os fez felizes.
Por isso, havia o desejo de vê-lo feliz também.
Essa relação pode parecer difícil de explicar racionalmente. Afinal, como um brasileiro poderia torcer para a Argentina, uma das maiores rivais da Seleção Brasileira?
A resposta pode estar na experiência pessoal que cada torcedor teve com Messi.
Assistir ao argentino jogar durante tantos anos significou, para muita gente, ter momentos de prazer em meio às dificuldades da vida cotidiana.
Às vezes, a pessoa não está passando por um bom momento. A vida está complicada, existem problemas pessoais, preocupações e dificuldades. Então ela liga a televisão para assistir a Messi ou procura seus melhores momentos na internet.
Durante alguns minutos, essas preocupações desaparecem.
O futebol oferece essa possibilidade de escape, e Messi foi especialmente eficiente em proporcionar esse sentimento.
Sua maneira de jogar parecia simples.
E justamente essa simplicidade talvez seja uma das razões pelas quais ele conquistou tantos admiradores.
A simplicidade que tornou Messi tão especial
Messi nunca precisou transformar cada lance em uma demonstração exagerada de força física ou plasticidade.
O futebol contemporâneo possui jogadores capazes de impressionar por características diferentes. Neymar, Lamine Yamal, Michael Olise e Cristiano Ronaldo, por exemplo, possuem recursos físicos e técnicos que podem produzir momentos extremamente espetaculares.
Cristiano impressionou durante anos pela força, velocidade, impulsão e capacidade atlética. Outros jogadores encantam pelos dribles, pela explosividade ou pela plasticidade dos movimentos.
Messi também produziu incontáveis lances plásticos durante mais de duas décadas de carreira. Mas sua principal característica parecia ser outra: fazer o extraordinário parecer simples.
Ele recebia a bola, conduzia, acelerava, passava por um adversário e finalizava de uma maneira que muitas vezes dava a impressão de que aquilo era fácil.
Não havia necessidade de demonstrar que estava fazendo algo extraordinário.
A bola falava por ele.
E isso criou uma identificação muito forte com torcedores que enxergavam naquele futebol objetivo, eficiente e aparentemente simples uma representação da própria essência do esporte.
Messi teria sido amado independentemente de sua nacionalidade
O impacto de Messi também parece ultrapassar completamente sua nacionalidade.
Se tivesse nascido alemão, italiano, chinês, sul-africano ou marroquino, sua maneira de jogar provavelmente produziria a mesma admiração.
O fato de ser argentino não foi suficiente para impedir que milhões de torcedores de outros países torcessem por ele.
Alguns fizeram isso publicamente e com grande convicção. Outros preferiram esconder o sentimento, inclusive de si mesmos.
Durante anos, muitos torcedores tiveram dificuldade até de admitir que queriam que Messi vencesse. Afinal, vê-lo feliz significava, em certo sentido, assistir ao maior rival de suas próprias seleções alcançar seus objetivos.
Mas a admiração pelo jogador acabou superando a rivalidade nacional.
A geração brasileira que cresceu com Messi
Existe ainda outro fator importante: a geração que acompanhou o auge de Messi também viveu um período de grande frustração com a Seleção Brasileira.
Quem nasceu em meados dos anos 1980, por exemplo, teve a oportunidade de acompanhar a Seleção de 1998, a conquista da Copa do Mundo de 2002 e posteriormente uma sequência de decepções.
A partir daí, vieram diferentes gerações brasileiras que nem sempre conseguiram criar a mesma identificação com o torcedor.
Houve equipes consideradas pouco conectadas com o público, campanhas decepcionantes e eliminações dolorosas em diferentes Copas do Mundo.
Ao mesmo tempo, Messi estava presente.
Ele aparecia constantemente nos grandes jogos, decidia partidas e oferecia ao torcedor uma referência técnica que atravessou mais de uma década.
Essa situação criou um vazio curioso para parte dos brasileiros.
O Brasil sempre teve uma sequência impressionante de grandes jogadores: Garrincha, Pelé, Zico, Sócrates, Falcão, Romário, Ronaldo, Rivaldo, Ronaldinho e tantos outros.
Depois dessa sequência, Neymar parecia ser o herdeiro natural desse papel.
Mas nem todos os brasileiros se identificaram com Neymar. Questões relacionadas à sua personalidade e à sua imagem fora de campo fizeram com que parte do público não o enxergasse como o ídolo que esperava.
E esse espaço acabou sendo ocupado, em certa medida, por jogadores estrangeiros.
Cristiano Ronaldo foi um deles.
Messi foi outro.
Um fenômeno que também aconteceu fora do Brasil
O fenômeno não foi exclusivamente brasileiro.
Em Barcelona, por exemplo, a identificação com Messi foi naturalmente muito forte, embora essa relação tenha sido mais intensa na Catalunha do que em outras partes da Espanha.
Em outros países, situações semelhantes também podem ter acontecido.
A Itália, por exemplo, passou por períodos em que sua seleção não conseguia chegar aos grandes torneios ou não apresentava um grande protagonista individual capaz de representar uma geração inteira.
Nesse cenário, torcedores italianos também poderiam encontrar em Messi uma forma de continuar se conectando com o futebol de alto nível.
O futebol mundial acabou se polarizando, especialmente durante uma determinada geração, em torno de Messi, Cristiano Ronaldo e um grupo relativamente pequeno de grandes estrelas.
Messi se tornou o principal expoente desse grupo para milhões de torcedores.
O vazio deixado pelos grandes ídolos nacionais
A identificação com Messi pode ser entendida justamente a partir desse vazio.
Durante décadas, os brasileiros tiveram jogadores capazes de representar não apenas o futebol, mas também uma parte da identidade esportiva do país.
Quando essa sequência diminuiu, muitos torcedores passaram a procurar seus ídolos em outras seleções.
Messi oferecia algo particularmente atraente porque não dividia o público da mesma maneira.
Sua personalidade mais reservada e sua relação quase exclusiva com o futebol fizeram com que muitos torcedores conseguissem projetar nele aquilo que esperavam de um grande jogador.
Ele não precisava ser brasileiro para representar os valores futebolísticos que muitos brasileiros admiravam.
Por isso, alguém poderia torcer por Messi sem necessariamente torcer pela Argentina.
Essa distinção é fundamental.
A relação pessoal com Messi sem vestir a camisa argentina
A própria experiência relatada no depoimento demonstra isso.
Nunca houve necessidade de vestir a camisa da Argentina para torcer por Messi.
A admiração era pelo jogador, não pela seleção.
A única exceção ocorreu em uma situação escolar, quando uma turma acabou representando a Argentina em uma espécie de Copa do Mundo das Olimpíadas do colégio. Na ocasião, foi utilizada a camisa número 3 de Sorín.
Fora daquele contexto, a camisa argentina nunca foi necessária para demonstrar admiração por Messi.
Ao mesmo tempo, existe também uma distância recente em relação à própria camisa da Seleção Brasileira. Não por uma questão política, mas pela sensação de vazio criada durante determinado período.
Essa relação pode mudar quando o torcedor passa a conhecer pessoalmente os jogadores.
Depois de conviver mais de perto com atletas brasileiros, surge uma compreensão diferente sobre suas histórias e personalidades. Jogadores como Vinícius Júnior, Raphinha, Alisson e Casemiro podem ganhar uma dimensão diferente quando o torcedor conhece mais sobre suas trajetórias.
Mas nem todos têm essa oportunidade.
Por isso, é possível compreender o brasileiro que não se sente representado pela atual Seleção e acabou encontrando em um jogador estrangeiro a figura que gostaria de ter como referência.
A decisão de torcer por Messi contra a Espanha
Na reta final da Copa do Mundo, quando ficou definido que Argentina e Espanha disputariam a decisão, a questão ganhou proporções ainda maiores.
No Brasil, a pergunta passou a ser inevitável:
“Para quem você vai torcer?”
Declarar apoio à Argentina naquele momento significava enfrentar uma enorme reação de parte dos torcedores brasileiros.
Ainda assim, a escolha foi feita de maneira clara: a torcida seria por Messi.
Não necessariamente pela Argentina, mas por Messi.
E havia plena consciência de que essa decisão poderia gerar críticas, discussões e até ataques nas redes sociais.
Meses depois, porém, não havia arrependimento.
A justificativa continuava sendo a mesma: gratidão.
A gratidão por um jogador que, durante tantos anos, proporcionou felicidade simplesmente jogando futebol.
Não era sobre a Argentina. Era sobre Messi
Essa distinção ajuda a explicar por que muitos torcedores brasileiros conseguiram apoiar a Argentina naquela Copa.
Em várias ocasiões anteriores, a torcida não era exatamente para que a Argentina vencesse.
Era para que Messi avançasse.
Para que ele tivesse mais um jogo.
Para que fosse possível assistir novamente ao maior jogador daquela geração.
Em alguns momentos, o resultado coletivo parecia até secundário. Se Messi marcasse três gols em um empate por 3 a 3, por exemplo, a preocupação principal seria vê-lo continuar na competição.
Era a oportunidade de assistir mais uma vez àquele jogador que havia acompanhado a vida de milhões de pessoas durante duas décadas.
Agora, com sua despedida da seleção, esse ciclo chega a um momento decisivo.
Talvez para muitos torcedores também seja o fim da necessidade de torcer pela Argentina. O vínculo emocional estava diretamente ligado a Messi.
Assim como aconteceu com outros grandes jogadores que encerraram seus ciclos internacionais, existe agora a sensação de dever cumprido.
Aqueles que torceram por Messi queriam que o jogador que os fez tão felizes também tivesse a oportunidade de ser feliz.
E, depois de tudo que conquistou com a Argentina, a sensação é de que ele conseguiu.
Messi e o amor pelo futebol que ultrapassou rivalidades
No fim das contas, talvez seja justamente essa a melhor maneira de entender por que tantos brasileiros e torcedores de outros países conseguiram torcer por Messi ao longo de sua carreira internacional.
Ele passou a representar algo maior do que uma seleção específica. Representou o respeito pelo jogo, o amor pelo futebol e a beleza de executar o esporte com uma simplicidade extraordinária.
É possível admirar a plasticidade de Ronaldinho, a explosividade de Cristiano Ronaldo, a habilidade de Lamine Yamal ou a técnica de Michael Olise. Cada grande jogador possui características que fazem o público se apaixonar pelo futebol.
Mas Messi construiu sua relação com o torcedor de uma maneira diferente.
Durante mais de duas décadas, ele fez coisas extraordinárias parecerem naturais.
Sua condução de bola, seus dribles, seus passes, suas finalizações e sua capacidade de tomar decisões em velocidade pareciam, muitas vezes, movimentos simples. Não havia necessidade de transformar cada lance em uma demonstração de força ou espetáculo. A eficiência vinha acompanhada de uma beleza própria.
Foi essa simplicidade, mantida em um nível altíssimo durante tantos anos, que cativou milhões de pessoas.
O fim da torcida pela Argentina para muitos torcedores
Por isso, a aposentadoria de Messi também pode representar o fim de uma relação curiosa para muitos torcedores que nunca tiveram a Argentina como sua seleção.
Durante anos, algumas pessoas acabaram torcendo pela Argentina simplesmente porque Messi estava ali.
Não necessariamente queriam ver a Argentina vencer. Queriam ver Messi continuar jogando.
Queriam que ele marcasse, desse assistências, avançasse de fase e tivesse mais uma oportunidade de entrar em campo.
Agora, com sua despedida, esse vínculo pode desaparecer.
E isso não significa que essas pessoas tenham se tornado torcedoras argentinas. Significa apenas que encontraram em Messi um jogador capaz de ultrapassar as fronteiras tradicionais da rivalidade entre seleções.
O mesmo sentimento que levou muitos brasileiros a torcerem por ele pode ser encontrado em diferentes partes do mundo.
Uma carreira que terminou com o dever cumprido
Depois de tantos anos de críticas, finais perdidas e questionamentos, Messi encerra sua passagem pela Argentina com uma sensação completamente diferente daquela que existia no início de sua carreira.
Durante muito tempo, a ausência de um grande título pela seleção era usada para diminuir sua trajetória.
Hoje, esse argumento perdeu força.
Messi conquistou a Copa América, a Finalíssima e a Copa do Mundo. Foi protagonista em diferentes campanhas, estabeleceu recordes históricos e construiu uma relação profunda com seus companheiros e com os torcedores argentinos.
Mais do que isso, conseguiu transformar a maneira como sua carreira pela seleção é lembrada.
Aquele jogador que durante anos era questionado por não conseguir repetir com a Argentina o sucesso que tinha nos clubes terminou sendo justamente o líder de uma das maiores gerações da história do futebol argentino.
“Gracias, Leo”
É por isso que a expressão “Gracias, Leo” talvez seja a síntese perfeita desse momento.
Os argentinos agradecem pelos títulos, pelos gols, pelas assistências e pelas grandes partidas.
Mas o agradecimento vai além disso.
Agradecem pelos momentos de felicidade, pelo orgulho de vestir a camisa argentina e pela capacidade que Messi teve de unir um país através do futebol.
E, fora da Argentina, milhões de torcedores também têm motivos para agradecer.
Torcedores que cresceram assistindo aos seus jogos, que acompanharam suas melhores fases, que comemoraram seus gols, que procuraram seus melhores momentos na internet em dias difíceis e que simplesmente encontraram no futebol de Messi alguns minutos de felicidade.
É uma forma muito particular de gratidão: querer que alguém que tantas vezes proporcionou alegria também pudesse terminar sua trajetória internacional sendo feliz.
Foi isso que aconteceu.
Messi sofreu, perdeu finais, foi criticado, chegou a abandonar a seleção e depois voltou. Viveu anos de dúvidas até finalmente conquistar aquilo que parecia impossível. E, quando chegou ao fim de sua trajetória, encontrou uma seleção que o reconhecia não apenas como seu maior jogador, mas como uma figura central de sua própria história recente.
O legado de Messi vai muito além dos títulos
Os troféus certamente fazem parte desse legado, mas não são suficientes para explicá-lo.
Messi deixou uma marca em torcedores que sequer nasceram na Argentina. Fez brasileiros torcerem por um argentino, italianos se identificarem com um jogador estrangeiro, espanhóis dividirem sentimentos em torno de sua figura e fãs de diferentes partes do planeta acompanharem futebol simplesmente para vê-lo jogar.
Isso acontece com pouquíssimos atletas.
Sua maior contribuição talvez tenha sido mostrar que o futebol pode ser universal.
Que uma pessoa não precisa compartilhar a nacionalidade de um jogador para se sentir representada por ele.
Que uma rivalidade histórica pode ser colocada de lado por alguns minutos diante da admiração por um talento extraordinário.
E que, no final, o futebol continua sendo uma das poucas coisas capazes de fazer pessoas de diferentes países se emocionarem com a mesma jogada.
Messi foi argentino, mas seu futebol pertenceu ao mundo.
E talvez seja justamente por isso que sua despedida provoque um sentimento tão difícil de explicar: para muitos, não é apenas a aposentadoria de um jogador da seleção argentina. É a despedida de uma presença que acompanhou uma geração inteira e que, durante mais de 20 anos, fez milhões de pessoas pararem para assistir ao futebol.
Gracias, Leo.
Matérias | Futebol Internacional
Análises táticas e bastidores do futebol de elite europeu.
Início-Matérias-Sobre-Contato
Redação
© 2026 Pressão Alta | Futebol Internacional-Jornalismo tático e cobertura independente do futebol internacional.
PALCO EUROPEU - COBERTURA DE ELITE
